com Jorge Campos sobre o filme In The Year Of The Pig (EUA, 1968, 102'), de Emile de Antonio
com Jorge Campos sobre o filme In The Year Of The Pig (EUA, 1968, 102'), de Emile de Antonio
Em X-RAYDOC analisam-se filmes cuja relevância é incontornável para uma História do Documentário, entendida a partir de um dos seus elementos estruturantes: a relação com o outro, em contexto. Dessa relação decorrem implicações decisivas, desde logo no plano das opções narrativas, moldadas por critérios simultaneamente éticos e estéticos.
Sendo o real — matéria-prima do documentário — uma realidade em permanente transformação, o cinema documental desdobra-se numa multiplicidade praticamente infinita de formas, perspetivas e soluções. Essa diversidade é inerente a um cinema que interroga o seu tempo e aqueles que o habitam. É nesse território que se constrói o olhar. E, com ele, toda uma teoria do documentário.
Há documentários que influenciaram o desfecho de guerras, contribuíram para a absolvição de condenados à morte, desafiaram verdades estabelecidas, denunciaram realidades insustentáveis e transformaram a vida de milhares de pessoas. Há documentários que mudaram o próprio cinema.
É no horizonte dessa singular capacidade de intervenção, reflexão e reinvenção que X-RAYDOC se inscreve, propondo não apenas a análise de obras fundamentais, mas uma leitura crítica que procura ir mais além do filme, explorando as suas implicações históricas, estéticas, éticas e políticas.
Produzido no auge da Guerra do Vietname, o documentário de Emile de Antonio traça as raízes históricas desse conflito. Com uma indignação evidente, De Antonio reúne entrevistas da época com jornalistas, políticos e figuras-chave do meio militar, bem como imagens de atualidades internacionais e material de arquivo, construindo uma crónica contundente sobre o envolvimento crescente dos Estados Unidos numa guerra profundamente divisiva. As imagens brutais e aterradoras falam por si mesmas naquele que é, provavelmente, o filme mais controverso da carreira de de Antonio — e também aquele que o próprio cineasta apontava como o seu favorito pessoal. 1969: Prémios da Academia (Óscares) — nomeação para Melhor Longa-Metragem Documental.
Realização e Argumento: Emile de Antonio / Cinematografia: Jean-Jacques Rochut / Música: Steve Addiss / Produção: Emile de Antonio, Turin Film Productions / Duração: 103 minutos / M/16
Emile de Antonio (1919 –1989) foi um dos cineastas políticos mais influentes e controversos dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Rejeitou abertamente a suposta objetividade do movimento cinema verité para criar documentários de compilação altamente analíticos, viscerais e provocadores. Em vez de usar narradores externos, construía fortes argumentos ideológicos através da montagem vanguardista de imagens de arquivo, noticiários televisivos e entrevistas sem filtros IN THE YEAR OF THE PIG, o primeiro grande documentário realizado sobre a Guerra do Vietname, permanece uma obra fundamental do cinema político e uma das mais poderosas declarações antibélicas alguma vez levadas ao cinema. Justapondo entrevistas com imagens de atualidades e material de arquivo, montados para um impacto máximo, o realizador Emile de Antonio traça a história do conflito desde as suas raízes no colonialismo francês, passando pela ascensão do líder comunista Ho Chi Minh, até ao envolvimento dos Estados Unidos na região. Uma denúncia devastadora do papel da América na guerra, realizada enquanto o conflito ainda estava em curso, IN THE YEAR OF THE PIG desafiou o público a questionar a narrativa oficial e a sua própria cumplicidade na construção e aceitação dessa narrativa.
Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Santiago de Compostela, especialista em Cinema Documental, professor do Ensino Superior, jornalista, cineasta e programador cultural. Como jornalista trabalhou na Imprensa, Rádio e Televisão, designadamente na RTP, onde esteve 25 anos. Realizou vários documentários e foi o Programador responsável pela área de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, bem como do ciclo de Fotografia e Cinema Documental Imagens do Real Imaginado do Instituto Politécnico do Porto. Anima o blogue NARRATIVAS DO REAL.